19/12/2019

Hipocalcemia: qual caminho devo seguir para tratar essa doença?

Período de transição causa mudanças metabólicas em vacas leiteiras

O período pós-parto em vacas leiteiras é marcado por grandes desafios para os produtores de leite, principalmente por conta da alta incidência de doenças. Entre as enfermidades, a hipocalcemia merece atenção redobrada dos pecuaristas, uma vez que pode trazer grandes prejuízos à produção de leite, podendo se apresentar de duas formas: clínica e subclínica.

Associada ao parto e início da lactação, a doença é caracterizada principalmente pela redução dos níveis das concentrações de cálcio no sangue. O estresse do parto, as mudanças na dieta e o início da produção de leite estão envolvidos no desencadeamento da doença, visto que aumentam a necessidade de cálcio pelo organismo do animal. Como muitas vezes a vaca não consegue buscar esse mineral em suas reservas, a deficiência acaba causando ao animal disfunção neuromuscular, com paralisia flácida, colapso circulatório, bem como depressão da consciência. 

A hipocalcemia costuma atingir vacas entre a segunda e a quinta lactação, geralmente nas primeiras 72 horas pós-parto. Os sintomas da hipocalcemia clínica, conhecida também como “febre do leite” e “síndrome da vaca caída”, estão relacionados à fraqueza, incoordenação, tremores musculares, decúbito, entre outros. Por outro lado, apesar de não possuir sinais clínicos evidentes, a hipocalcemia subclínica pode gerar problemas sérios após o parto, como retenção de placenta, torção de abomaso e mastite.

Com o exame clínico completo é possível ter um diagnóstico preciso da doença. São avaliados o úbere da vaca, as mucosas, o sistema digestivo, assim como as frequências cardíacas e respiratórias. A partir daí, pode-se traçar uma estratégia eficaz para combater a doença. 

Como é feito o tratamento eficiente contra a hipocalcemia?

O tratamento contra a hipocalcemia possui soluções eficientes, entretanto os resultados só serão positivos com o uso de estratégias adequadas. O mais indicado é a suplementação de cálcio, seja injetável ou oral, no período pós-parto. Para garantir a efetividade, é preciso ficar atento quanto ao tipo de cálcio utilizado, o momento da suplementação e a forma como a solução será administrada. 

Diante de casos de hipocalcemia subclínica, uma solução bastante utilizada para prevenção é suplementação de cálcio oral (Calfon Oral®). Dessa forma, a vaca ingere uma quantidade efetiva de cálcio que estará disponível em até 30 minutos após a administração do medicamento. Vale alertar: nesses casos não é recomendado o uso de solução injetável, pois o cálcio endovenoso tende a aumentar rapidamente a sua concentração na corrente sanguínea, causando dois grandes problemas: (1) possíveis complicações cardíacas e (2) o conhecido “efeito rebote”, já que a vaca tende a suprimir a habilidade de mobilização de cálcio dos ossos. 

Vacas com quadro de hipocalcemia clínica devem ser tratadas imediatamente, caso contrário o risco de o animal ir a óbito é eminente. Diante dessa situação, o gluconato de cálcio (Calfon®) deve ser administrado por via endovenosa. Ainda que respondendo positivamente ao tratamento com cálcio injetável, alguns autores relatam que 25% a 40% das vacas ainda podem apresentar recidivas nas 12h a 24h subsequentes. Portanto, após se levantarem, as vacas devem receber também duas doses de cálcio oral (Calfon Oral®) com intervalo de 12 horas entre as aplicações para reduzir o risco de voltarem a apresentar quadro clínico de hipocalcemia.

O cálcio injetável pela via subcutânea também é utilizado no tratamento da hipocalcemia. Entretanto, apresenta algumas limitações. A absorção dessa solução, por exemplo, requer uma perfusão periférica correta, o que pode tornar ineficaz se for administrado em vacas com níveis de desidratação. Ao utilizar essa solução, é preciso lembrar que não é recomendado aplicar mais de 75 ml no mesmo local, caso contrário, o cálcio injetável pode provocar irritações que levam à necrose tecidual.   

Prevenir ainda é o melhor remédio

Agir de forma preventiva ainda é o melhor remédio contra a hipocalcemia, tanto na forma clínica ou subclínica. Para isso, uma estratégia bastante utilizada são as dietas aniônicas no período pré-parto, as quais estimulam os mecanismos do organismo da vaca para mobilizar o cálcio dos ossos e outras reservas, além de melhorar a absorção desse mineral no intestino. Com os níveis do mineral regulados, é possível que o animal não sofra com as alterações metabólicas no período de transição. 

No entanto, a implementação de dietas aniônicas é um manejo trabalhoso. Ela requer instalações, com piquetes próprios, além de um minucioso controle nutricional. Por isso, seja para prevenção ou tratamento da hipocalcemia, a participação de um médico-veterinário é indispensável. 

Fontes:

https://www.milkpoint.com.br/canais-empresariais/bayer/suplementacao-de-calcio-endovenoso-subcutaneo-ou-oral-210154/

https://www.milkpoint.com.br/canais-empresariais/bayer/eu-deveria-utilizar-calcio-intravenoso-para-prevenir-hipocalcemia-subclinica-210384/

https://www.saudeanimal.bayer.com.br/pt/doencas/visualizar.php?codDoenca=hipocalcemia

Referências:

Goff, J. P. 1999. Treatment of calcium, phosphorus, and magnesium balance disorders. Vet. Clin. North Am. Food Anim. Pract. 15:619-639.

Oetzel, G. R. 2011. Non-infectious diseases: Milk fever. In Encyclopedia of Dairy Sciences. Vol. 2. F. J. W. Fuquay, P.F, McSweeney, P.L.H., ed. Academic Press, San Diego.

Thilsing-Hansen, T., R. J. Jørgensen, and S. Østergaard. 2002. Milk fever control principles: a review. Acta Vet. Scand. 43:1-19.

Blood, D.C. e Rodostits O.M. 2002. Clínica Veterinária. 9ª Edição. Editora Guanabara Koogan S.A., Rio de Janeiro, RJ.

Corrêa M. N.; González F.H.D.; Silva S.C. 2010.Transtornos Metabólicos Nos Animais Domésticos. Editora e Gráfica Universitária UFPEL, Pelotas, RS.

L.BR.MKT.AH.2019-12-17.0737