23/09/2019

Doenças respiratórias em suínos e os prejuízos na criação

O professor UFRGS falou sobre as causas e cuidados quanto as doenças respiratórias em suínos.

Manejo realizado nas granjas está entre as principais causas da enfermidade

As doenças respiratórias em suínos podem ser consideradas como algumas das principais “vilãs” da suinocultura. Há anos são responsáveis por prejuízos imensuráveis na cadeia produtiva, com grande impacto negativo na economia do setor. No Brasil, mais de 90% das granjas convivem com doenças respiratórias, segundo estimativas do médico-veterinário David Barcellos, que também é professor titular no curso de pós-graduação em Ciências Veterinárias pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS).

A presença dos agentes infecciosos respiratórios é frequente nas granjas brasileiras. Porém, a ação da doença não depende unicamente da bactéria em si, mas de um complexo multifatorial relacionado com as interações de diversos agentes patogênicos. Ou seja, as doenças respiratórias são variáveis e o que determinará sua ação e efeito é a presença, em maior ou menor grau, dos fatores ambientais e de manejo na granja. Esses aspectos, por sua vez, são os que predispõem os animais às infecções. Tais fatores, junto às características dos agentes infecciosos, fazem com que geralmente as doenças sejam transmitidas pela associação de dois ou mais microrganismos.

O impacto negativo em decorrência das doenças respiratórias é preocupante, uma vez que os animais costumam apresentar lesões pulmonares durante o abate. “Não há dúvidas que hoje é uma questão que traz um enorme prejuízo ao setor, sendo atualmente o principal problema e desafio a ser vencido pelos produtores de suínos”, garante Barcellos.

Como os agentes infecciosos chegam às granjas

São vários os motivos que levam à transmissão das doenças respiratórias em suínos. Mas, no Brasil, especificamente, a forma como são feitos os manejos se destaca como um grande fator predisponente às doenças respiratórias. Atualmente, as granjas recebem uma diversidade de animais de origens distintas que são alojados muito próximos uns dos outros. Essa mistura acaba permitindo a infecção dos suínos com  diferentes agentes infecciosos que, por sua vez, acarretam em complicações respiratórias.

Esse sistema, cujo manejo consiste na mistura de animais de diferentes criações, é utilizado pela maioria das granjas no Brasil. “Atualmente, existem dados que indicam que em torno de 95% das nossas granjas possuem alguma infecção respiratória”, salienta Barcellos. “Apenas as granjas núcleo e suas multiplicadoras, que trabalham com melhoramento genético e expansão das linhagens, atuam sem esse risco.”

Por outro lado o abate de suínos cresce gradativamente no Brasil. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam crescimento de 5,1% no segundo trimestre deste ano, quando comparado ao mesmo período em 2018. Assim, foram abatidas 11,39 milhões de cabeças, chegando ao peso acumulado da carcaça em de 1,02 milhão de toneladas, alta de 4,3% em relação ao mesmo período no ano passado.

Quais são as principais doenças respiratórias causadas nos suínos?

Nesse período de inverno, com baixa umidade e temperatura, aliada a maior manutenção de salas com janelas (ou cortinas) semi fechadas, as ocorrência de doenças respiratórias em suínos tendem a aumentar. Entre as principais, consideradas primárias, estão a pneumonia por micoplasma, influenza suína e a pleuropneumonia suína. São doenças incapazes de agir sem a interação de um agente secundário. Sendo assim, por fazerem parte de um complexo de doença respiratório e, de maneira isolada, são incapazes de causar um quadro de doença significativo.

Quando infectados, os animais costumam apresentar sinais de tosse, dispneia (dificuldade respiratória), febre, corrimento nasal, além de falta de apetite e perda de peso. As doenças respiratórias em suínos podem ocasionar consequências drásticas, como interferência no desenvolvimento corporal do animal e piora na conversão alimentar, condenação da carcaça e até morte. São doenças que, se não forem tratadas adequadamente, podem disseminar o agente para o restante do plantel.  

Como prevenir contra as doenças respiratórias em suínos

Fazer uso de um programa de biossegurança é um dos  caminhos mais eficazes para evitar a entrada das doenças respiratórias nas granjas. Com essa estratégia é possível traçar um plano seguro e eficiente, baseado em aspectos como: transporte adequado dos animais; intervenção na cadeia de infecção de reprodutores e medidas para evitar  a transmissão de doenças por melhorias em programas de lavagem, desinfecção, vazio sanitário, entre outras.

Segundo Barcellos, outras ações são também fundamentais para evitar que doenças afetem o desempenho dos suínos. A maioria delas está relacionada à organização das granjas. “É preciso melhorar as instalações das granjas, bem como controlar melhor as lotações. O local deve estar sempre limpo, com cochos adequados, boa disponibilidade de água e com manejo adequado das cortinas para evitar o frio, mas evitando o abafamento”, salienta. “É indispensável oferecer conforto para evitar estressar o animal. Basicamente, o Brasil possui granjas antigas e sistemas desgastados. Entretanto, na maioria dos países que competem em exportação com o Brasil, existe uma suinocultura com fluxo de produção melhor organizado e com instalações e ambiência melhores do que as existentes nas condições brasileiras”, complementa.

Barcellos alerta ainda que nas condições do Brasil algumas vacinas podem ser pouco eficientes para a profilaxia das doenças incidentes no país. Isso porque os fatores que afetam negativamente a produção são bastante frequentes e variados e determinam  impacto negativo às defesas dos animais. Por isso, considera-se que seja difícil produzir uma vacina que possa ser efetiva para evitar a doença causada por todos as variantes (sorotipos e tipos)  dos agentes presentes nas granjas do Brasil. Dessa forma, é importante ficar atento e identificar qual é o agente presente antes de iniciar qualquer tipo de tratamento. Na dúvida, procurar sempre o apoio de um médico-veterinário.

 

Fonte: Entrevistra com o professor David Emílio Barcellos