Verminoses em Bovinos

Introdução:

As gastroenterites verminóticas de ruminantes são causadas por nematódeos e pode-se dizer que essa enfermidade está presente em praticamente 100% das propriedades de bovinos do mundo.

O controle de parasitos em bovinos é um importante fator na produção, uma vez que os parasitos causam grandes perdas econômicas devido a queda de produtividade e transmissão de patógenos, podendo ocasionar morte em animais.

Os efeitos dos nematódeos sobre os bovinos dependem da espécie e do grau de infecção, o qual, por sua vez, depende de diversos fatores, tais como as condições climáticas, solo, vegetação, tipo de exploração, raça, idade do animal e o tipo de pastagem (Bianchin 1979).

Esses parasitos podem causar mortalidade, mas esse não é o principal problema causado pelas verminoses, é possível dizer que a mortalidade por causa de parasitos é muito baixa. Na verdade, o maior prejuízo para pecuária de corte está na redução do desempenho dos animais e perdas com menor ganho de peso.

A intensidade dessa redução no desempenho está ligada a idade dos animais infestados, resistência do hospedeiro, intensidade da carga parasitária, espécie de helminto envolvida e o estado nutricional e fisiológico do hospedeiro.

De maneira geral, as verminoses podem ser qualificadas em clínicas e subclínicas, sendo que 95% delas se enquadram nessa segunda categoria, ou seja, os animais não apresentam sintomas clínicos, mas está deixando de ganhar peso.

Para se chegar a um controle eficiente e econômico é necessário estudar a epidemiologia dos nematódeos nas diferentes regiões ecológicas do País, o que leva ao conhecimento da dinâmica dos helmintos no animal e na pastagem.

O controle estratégico é, por definição, preventivo e seus efeitos são notados somente a médio e longos prazos.

SÓCIOS INDESEJÁVEIS E PERMANENTES NA FAZENDA (PRINCIPAIS DANOS)

  • A capacidade de multiplicação dos vermes é altíssima, tornando sua erradicação praticamente impossível.
  • Uma vaca com verminose pode contaminar as pastagens com mais de 800.000 ovos de vermes por dia, permanecendo vivos (ovos e larvar) de 7-8 meses no solo;
  • Ainda no útero, bezerros podem ser contaminados por vermes;
  • Parasitoses provocam perdas de 1 a 4@ durante a vida do bovino;
  • Animais com idades de até 24 meses, são os que mais sofrem com a verminose gastrintestinal.
  • Na maioria das situações, contudo, os animais têm vermes sem que mostrem qualquer sintoma (infecção subclínica).
  • Em infestações subclínicas (não apresentam sintomas), a verminose reduz em 20% a ingestão e conversão dos alimentos, determinando atrasos no crescimento e aumentando o período de abate em até um ano.

Etiologia:

Epidemiologia dos nematódeos gastrointestinais

A ocorrência de gastroenterites parasitárias no campo é sempre ligada a infestações associadas dos principais agentes responsáveis pelas verminoses. Dificilmente as propriedades possuem somente um tipo de espécie de helminto.

Principais helmintos nematódeos em bovinos

Localização Gênero
Abomaso Haemonchus placei
Ostertagia ostertagi
Trichostrongylus axei
Intestino Delgado Strongyloides papillosus
Toxocara vitulorum
Bunostomum phebotomum
Trichostrongylus colubriformis
Trichostrongylus longispicularis
Cooperia punctata
Nematodirus helvetianus
Nematudirus spathiger
Intestino Grosso Oesophagostomum radiatum
Trichuris ovis
Trichuris discolor
Pulmão Dictyocaulus viviparus

Representação dos ovos, cistos e oocistos de parasitos de ruminantes

  • Trichostrongylus axei
    Trichostrongylus axei

    A espécie T. axei parasita o abomaso dos ruminantes e acomete bovinos com 2-3 meses de idade. É um verme muito pequeno e causa prejuízos em altas infestações, causando diarreia aquosa em animais estressados e mal nutridos. Os animais podem apresentar úlceras no abomaso decorrentes da parasitose por esse nematódeo.

  • Ostertagia ostertagi
    Ostertagia ostertagi

    Essa espécie é responsável por uma gastrite parasitária importante em bovinos, pois causa nódulos no abomaso que interferem diretamente no funcionamente do órgão e digestão protéica. No sul do Brasil esse parasita tem a sua maior patogenicidade na forma larvar. Por possuírem um curto período pré-patente, há um maior número de gerações por ano em regiões de clima tropical e subtropical no País, havendo presença de larvas infectantes nas pastagens durante todo o ano. O animal pode apresentar diarreia aquosa, anemia, edema submandibular. Algumas espécies entram em hipobiose em certas épocas do ano. Hipobiose é uma fase de latência, ou seja, interrompem seu desenvolvimento devido às condições adversas. Nesse período, as larvas são menos vulneráveis aos tratamentos anti-helmínticos, tornando-se um fator importante como mantenedor da infecção no rebanho. Esta hipobiose ocorre principalmente pela Ostertagia no sul do Brasil e provavelmente em regiões mais altas e frias do Sudeste durante a estação de verão. A hipobiose pode ser induzida também por fatores ligados a resistência do hospedeiro. As condições essenciais para a ocorrência desta espécie é a presença de chuvas no inverno (que dissolvem bolos fecais e permitem migração das larvas para os capins), como ocorre na região Sul, onde as mesmas estão regularmente distribuídas. De modo geral, acredita-se que a hipobiose não ocorre significativamente na região Sudeste e Centro-oeste, somente no Sul.

  • Haemonchus placei
    Haemonchus placei

    O H. placei possui distribuição mundial e é responsável por grandes perdas aos bovinos principalmente na região tropical. Os animais começam a eliminar os ovos a partir de 2 a 3 meses de idade nas fezes. Esse parasita fica alojado no abomaso e causa uma enfermidade caracterizada pela anemia por se alimentarem de sangue do hospedeiro. A ação hematófaga e a ação espoliativa são fatores que justificam a alta patogenicidade do verme.

    Em seu ciclo de vida, o parasita passa pelo fenômeno de hipobiose. As melhores condições de sobrevivência da larva do H. placei são a alta temperatura e umidade. Portanto, redução de atividades das larvas ocorre no inverno.

    Os sinais clínicos comuns da haemoncose são:

    • Anemia
    • Hiproteinemia (evidenciado pelo edema submandibular) e perda excessiva de ferro
    • Inapetência e perda de peso
    • Lesão na mucosa abomasal pela infestação
    • Morte em casos agudos
  • Cooperia sp
    Cooperia sp

    São parasitas que habitam o intestino delgado de ruminantes e são amplamente distribuídos mundialmente. Esses vermes são considerados menos patogênicos, mesmo quando em altas infestações. Os bovinos começam a eliminar os ovos a partir da fase que animal entra em contato com a pastagem. A espécie que acomete os bovinos é a Cooperia punctata e um dos vermes gastrointestinais mais prevalentes nos bovinos no Brasil.

  • Bunostomum
    Bunostomum

    É um nematóide do trato intestinal, mais especificamente do intestino delgado, dos ruminantes que muitas vezes aparece em infecções mistas com outros nematóides dificultando o desenvolvimento dos animais e causando grandes prejuízos aos produtores. Os ovos são eliminados geralmente após o 3°- 4° mês de idade dos bovinos. O Bunostomum, assim como o Haemonchus causa lesões na mucosa do trato gastrointestinal e tem atividade hematófaga, portanto é considerado um dos vermes mais patogênicos. A infecção mais comum é a via percutânea, quando o parasita presente nas fezes penetra a pele do hospedeiro. Há também a transmissão por via oral, porém ela é menos comum e eficiente do que a via percutânea.
    Em animais infectados por Bunostomum é comum observar uma urticária e dermatite no local de penetração das L3. O gado estabulado, devido a coceira, apresenta-se inquieto, batendo as patas e lambendo as pernas, como querendo livrar-se de algo que o incomoda. Além disso, pode-se observar diarreia, anemia, perda de peso e morte, em casos graves e é muito frequente o edema da região submandibular.

  • Toxocara
    Toxocara

    É considerado um dos principais helmintos de bezerros a partir dos primeiros dias de vida, uma vez que são transmitidos, principalmente pelo leite da mãe. A precocidade no aparecimento dos ovos nas fezes está diretamente relacionada com a forma de infecção, transplacentária e mamária. Quando os bezerros começam a ter acesso a pastagens, a resistência ao Toxocara já está presente e a susceptibilidade aumenta para os demais vermes (Haemonchus, Cooperia, Oesophagostomum, Trichostrongylus e Bunostomum). As larvas em bezerros acima de 6 meses migram para os tecidos onde ficam quiescentes e o parasita retornam ao desenvolvimento no final da prenhez, ocorrendo a transmissão mamária. O período pré-patente (PPP) está em torno de trs semanas, o que ocasiona o aparecimento de ovos nas fezes de bezerros com poucos dias de vida. Os sinais são inespecíficos, podendo ocorrer diarreias intermitentes em casos maciços e um subdesenvolvimento do bezerro.

  • Strongyloides
    Strongyloides

    É um parasita comum nos animais jovens e infesta o intestino delgado. Já na primeira semana de vida é possível encontrar ovos de Strongyloides papillosus nas fezes de bezerros, devido a infecção transplacentária ou ingestão de L3 presentes no colostro ou leite. Porém, a principal via de transmissão é a percutânea, com a penetração da larva L3 na pele do bovino. O pico máximo de eliminação de ovos ocorre entre o 2º e o 4º mês de idade. A partir do 6º mês de idade os bezerros desenvolvem uma imunidade efetiva contra este parasito e poucos animais apresentam infecção residual, que pode persistir até o 10° mês de idade. As infecções por Strongyloides são moderadas e assintomáticas na maioria dos casos e quando ocorre ela está associada a neonatos maciçamente desafiados e lactentes ou também em quadros de imunossupressão. Em condições precárias de higiene, o parasitismo pode ser mais grave, com quadro de enterite severa. Os sinais clínicos são muito inespecíficos, havendo menor desenvolvimento dos animais acometidos.

  • Oesophagostomum
    Oesophagostomum

    O gênero Oesophagostomum torna-se bem importante dada a patogenia deste verme de causar nódulos na parede do intestino grosso do hospedeiro ruminante, principalmente em pequenos ruminantes. A doença é mais severa em infecções posteriores que primoinfecções. Em um animal já sensibilizado , quando a L3 migra na mucosa para fazer a muda, a reação do hospedeiro é mais intensa e os sintomas clínicos são mais evidentes. Os nódulos formados pelas larvas encapsuladas tendem a se calcificar e interferem mecanicamente com o bom funcionamento do intestino. Deste modo, o animal pode ter a conversão alimentar diminuída por todo o seu crescimento. Além disso, há indícios que este verme produz substâncias que causariam anorexia no hospedeiro ruminante, aumentando a gravidade da gastroenterite verminótica.

  • Trichuris
    Trichuris

    São vermes que infectam o intestino grosso dos mamíferos, geralmente o ceco. São conhecidos como vermes “chicote” (extremidade posterior mais grossa que se afila abruptamente e a anterior é tipicamente fina). Os ovos do parasita são muito resistentes ao ambiente, podendo sobreviver por anos no solo. Bovinos jovens com infecções altamente pesadas por Trichuris discolor podem sofrer hemorragias maciças no lúmen do ceco e prolapso do reto. Porém, na maioria das vezes as infecções são leves e assintomáticas.

 

Sinais Clínicos:

  • Abdômen distendido;
  • Diarreia;
  • Mucosas pálidas (esbranquiçadas);
  • Emagrecimento;
  • Pelo arrepiado e sem brilho.

Prevenção/Controle

Controle de Vermes gastrointestinais

O controle das infestações por nematódeos gastrointestinais se baseia no uso de anti-helmínticos de amplo espectro, uma vez que as infecções por nematódeos são, geralmente, mistas.

Tratamentos curativos

É o método em que o criador só trata os animais quando apresentam a verminose clínica. Animais com verminose clínica significam alta contaminação ambiental. Estes animais são justamente aqueles 10% do rebanho (animais de “fundo”) e em muitas das vezes, só eles são tratados. No momento em que este tratamento é feito, a verminose já causou muito prejuízo.

Este tipo de tratamento não melhora a produtividade dos animais uma vez que as populações de vida livre permanecem altas nas pastagens, mantidas principalmente pelos animais clinicamente normais, mas que não são tratados.

Tratamentos tradicionais

Os tratamentos antihelmínticos tradicionais são muito usados e estão geralmente associados a cultura do meio rural, passada de geração a geração. O mais comum é aquele que consiste em duas vermifugações, geralmente em todo o rebanho, uma na entrada da estação chuvosa e outra na entrada da estação seca.

Este método também tem quase que nenhum efeito sobre as populações de vida livre (95% da população total) e seus resultados são semelhantes aos do tratamento curativo, ou seja, consiste basicamente na melhoria do estado orgânico daqueles animais mais severamente acometidos pela verminose.

Tratamentos estratégicos

São tratamentos suportados por trabalhos científicos realizados em campo e que têm como principal objetivo a diminuição das populações de vida livre, atingindo como alvo direto a população em parasitose.

Considera-se este método racional por basear-se em conhecimentos epidemiológicos, levando-se em conta principalmente as condições climáticas da região.

Na época das águas, as populações de vida livre estão aumentadas, pois as condições ambientais são favoráveis ao parasita. Com isso, a translação nesta época é muito alta. As reinfecções são intensas e constantes e é totalmente inviável um tratamento intenso para diminuir estas reinfecções. Por outro lado, as pastagens apresentam os maiores índices nutricionais, o que permite aos bovinos manterem um padrão orgânico de resistência frente às verminoses.

Na época seca, as condições ambientais não são favoráveis ao parasito, com isso, há uma queda muito grande do número de larvas nas pastagens e a relação parasitas em parasitose/ parasitas em vida livre, torna-se bem maior que na época das chuvas. Na época da seca, embora a translação esteja diminuída, os bovinos sentem mais os efeitos das verminoses, pois geralmente estão com a resistência orgânica diminuída em função do baixo valor nutricional das pastagens.

Baseando nestes dados, a melhor época para se tratar os animais e atingir com maior intensidade a população de vida livre é na durante a seca, quando a relação população parasitária / população de vida livre é maior.

Na época das chuvas não se trata, pois apesar da translação estar aumentada, os animais estão mais bem nutridos, evitando melhor as reinfecções.

Tratando deles nesta época, nós estaríamos diminuindo a contaminação das pastagens o que implica numa menor população de vida livre na próxima estação chuvosa.

Portanto, estudos têm demonstrado que a adoção de três vermifugações intervaladas de um mês nos meses mais secos do ano, em determinada região, atingem estes objetivos do controle estratégico, logicamente se associado a outras práticas de manejo relacionadas a epidemiologia das verminoses gastrointestinais (densidades animais muito elevadas que impedem o sucesso do programa).

No caso de gado de corte, a categoria animal incluída neste programa seriam os animais a partir da desmama até 24 meses de idade. Considerando os três meses mais secos de cada região, preconizam-se as três vermifugações: 1ª no mês anterior ao primeiro mês mais seco, 2ª no segundo mês mais seco, 3ª após o terceiro mês mais seco.

No caso do Brasil Central, estes três meses seriam junho, julho e agosto. Portanto, as três vermifugações seriam em maio, julho e setembro.

Como complemento, os bezerros devem ser vermifugados pela primeira vez na desmama.

Os animais adultos (vacas e touros) estariam incluídos nesse programa, apesar de apresentarem-se mais resistentes a verminoses. É recomendado vermifugar as vacas adultas antes do período seco, em que os níveis de imunidade decaem e antes do parto.

No caso de gado de leite, as medidas são semelhantes, só que os bezerros com menos de um ano de idade devem ser incluídos num programa mais rigoroso, principalmente nos primeiros dois anos do programa, quando as pastagens ainda estão contaminadas.

Esta categoria é a mais sensível às verminoses por se tratar de raças mais sensíveis.

Tratamentos táticos

São tratamentos que são decididos pelo veterinário responsável pelo programa de controle estratégico, e são baseados em diversos fatores:

  • Modificações climáticas em anos atípicos, levando a alterações da dinâmica das populações de vida livre nas pastagens, o que pode adiantar ou atrasar o início das vermifugações.
  • Aquisição de animais novos para a propriedade: É importante tratar com pelo menos dois grupos de antihelmínticos, evitando o insucesso do tratamento caso haja resistência da população a um dos grupos.
  • Vacas no parto. Fazendo parte do controle estratégico, é muito importante que tanto vacas quanto novilhas sejam vermifugadas ao parto, pois é a época em que elas eliminarão mais ovos nas pastagens. Neste caso, essa medida tem um efeito significativo e indireto nos bezerros, pois as vacas produzem mais leite e contaminam menos as pastagens.

Fontes:

  • Rhipicephalus (Boophilus) microplus – Biologia,Controle e Resistência/ Marcelo de Campos Pereira et al. São Paulo, MedVet, 2008
  • Georgis-Parasitologia Veterinária, Dwight D. Bowman et al., 9 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010
  • Ectoparasitos de Importância Veterinária, José Henrique Guimarães et al., São Paulo, Plêiade/FAPESP, 2001
  • Comunicado Técnico 56, “Miíases dos Bovinos”, Márcia Cristina de Sena Oliveira e Luciana Gatto de Brito, Embrapa, 2005
  • “Fatores que interferem no Controle das Helmintoses de Bovinos, Walter dos Santos Lima, UFMG

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